Paulo José

"Sofrer de uma doença irreversível é natural. Não somos eternos"

"Uns bebem demais, eu tenho Parkinson"
Portador do mal de Parkinson, o ator diz que voltou à vida depois de conseguir reestrear nos palcos

Há quanto tempo?
Há seis meses. Com os ensaios do teatro, toco pelo menos meia hora por dia e, se tenho tempo, até duas horas. É um exercício. Foi uma iniciativa minha voltar a tocar. A música é uma terapia excelente. Tenho como exemplo o neurologista Oliver Sacks.

Ele sofreu um acidente e perdeu os movimentos de uma perna. Começou a fazer fisioterapia, mas não conseguia melhorar. Um dia estava ouvindo uma música que gostava muito e percebeu que a perna paralítica começou a pulsar. Deliberadamente começou a relaxar, deixar a música tomar conta do corpo. Criou o método da musicoterapia para cura de lesões de paralisia e do Parkinson usando a música.

Como venceu seus medos?
Minha mulher me ajudou muito. Ela é uma pessoa adorável. Eu disse que não ia mais fazer teatro e ela me intimou: "Você pode e vai conseguir fazer teatro". Eu encarei como um desafio. Antes já havia lido outros textos e só desta vez me interessei.

Como o mal de Parkinson limitou sua vida profissional?
Percebi que, quando se faz muita coisa, não se faz nada direito. A quantidade compromete a qualidade. Fiquei mais seletivo. Agora estou fazendo a peça com toda profundidade. É mais intenso do que fazer mil coisas. Quando soube da doença, continuei no pique. Depois é que fui reduzindo, ficando mais seletivo. Tenho que me guardar para fazer bem um único trabalho. Fui chamado para fazer a próxima novela das sete. Sinto que farei bem, sem problemas.

Mas novela é uma maratona.
Controlo meu trabalho. O que me incomoda um pouco são aparições públicas, principalmente entrevistas. Fui fazer o Programa do Jô, que é ótimo, ele foi muito simpático, mas fiquei ansioso. Na novela, dá para me preparar. Tenho tempo.

Em oito anos, qual a pior fase?
No começo, continuei trabalhando porque a medicação tinha um efeito tranqüilo. O problema da levodopa (um dos remédios que ingere) é que, depois de algum tempo de uso, tem efeitos depressivos. A gente se fecha, evita os amigos, não quer sair de casa. Tive fases muito ruins, de evitar o contato com as pessoas. Foi péssimo, mas agora estou numa fase ótima.

Você quis parar de atuar?
Não, mas também desenvolvi outra qualidade. Uma janela se fecha, mas outra se abre. Como fiquei mais introspectivo, comecei a escrever.

Pensa publicar um livro?
Recentemente fiz um trabalho para a Globo sobre direção de atores. Fiz anotações e, quando percebi, tinha um livro de 200 páginas. O material está sendo distribuído internamente na Globo. Fiquei contente. Comecei a escrever sobre a minha experiência. Essas anotações sobre direção vão acabar publicadas, já tem editora interessada. Mas não penso em escrever um livro.

Você faz análise?
Faço. Foi fundamental quando descobri o Parkinson. Tem que ter algo te apoiando. Análise não é para curar, mas para que você se aceite melhor.

O que mudou na vida pessoal?
Passei a cuidar melhor de cada dia. A acordar pensando naquele dia, sem me preocupar com o amanhã. A decisão de mudar do Leblon, onde sempre morei, e vir para uma casa no alto da Gávea, no meio do mato, foi muito acertada. Estou em outra vibração. Acordo e ouço os passarinhos, ando pela casa. À noite ouço os grilos... Não tem aquela excitação da cidade.

Com a morte da Dina Sfat, como conciliou a tarefa de pai e mãe?
Nos últimos dois, três anos de sua vida, Dina se dedicou à luta contra o câncer. Continuava na ativa, mas isso exigia muito esforço dela. Ela lutou bravamente contra a doença. E, nesse período, as meninas já estavam comigo. As coisas vão acontecendo e você vai tentando resolver da maneira que pode. Os problemas afetivos, os estudos, as crises... A gente sempre erra, faz besteiras... Não sei, não há regra com relação aos filhos.

Tem medo de morrer?
Não tenho medo de morrer, não estou preocupado com isso. Tenho medo de não viver bem. A progressão do Parkinson é controlada. Tenho muita coisa para fazer, como escrever. O Parkinson não é diferente de qualquer outra situação do ser vivo, não pode ser usado como um trunfo nem como uma desvantagem. Depois que fiz 50 anos comecei a sair da garantia. Portanto, não existe nada de excepcional em ter Parkinson. Quando o médico te diz que você sofre de uma doença degenerativa e irreversível, é natural. Isso não é um privilégio do Parkinson, a condição humana é essa mesma. As pessoas vivem como se fossem eternas. Vivemos uma perda progressiva da vitalidade, da juventude. Em compensação, vamos ganhando sabedoria. Tem gente que bebe demais, eu tenho Parkinson.

Fonte: ISTOÈ Gente Online    http://www.terra.com.br/istoegente/61/entrevista/entrevista_2.htm